Minha carreira tem sido muito dinâmica. Trabalho desde os 15 anos de
idade, época em que, forçado por meu pai a aprender desde cedo a
importância do trabalho, eu trocava parte das minhas férias por um
estágio na loja Foto Beleza, de propriedade dos meus tios. A Foto Beleza
foi criada por meu avô, há mais de 60 anos. Aprendi a fotografar e a
revelar em preto e branco. Em seguida, comecei a fotografar aniversários
e casamentos.
Foi o contato com os equipamentos de fotografia que incentivou a minha
aproximação à eletrônica e me convencer a entrar na faculdade de
engenharia. Antes de seguir a carreira formal, fui um freqüentador
assíduo da Rua da Concórdia, em Recife, onde sempre comprava kits de
circuitos eletrônicos para montar. Um deles foi um seqüenciador de 10
portas, que usei para substituir meu seqüenciador manual de luzes (um
"piano" com interruptores de campainha), que eu já utilizava para animar
as festas dos amigos, juntamente com o equipamento de som que eu
retirava da sala de casa. Entretanto, não esqueço do primeiro circuito
que montei: Skorpion, um pequeno transmissor de FM, com microfone de
eletreto e um único transistor. Com o primeiro seqüenciador manual de
luzes, lâmpadas coloridas e o som doméstico, tornei-me um DJ.

Alguns anos depois, com a chegada ao mercado do videocassete VHS, montei
uma produtora de vídeo e a câmera fotográfica foi aposentada.
Meu primeiro micro foi um TK85, um clone do Sinclair, rodando com
4kbytes de memória RAM e processador Z80A. A linguagem era BASIC, mas
como o micro era limitado em termos de memória e hardware, comecei
aprender a programar em linguagem de máquina. Foi com o TK85 que veio a
minha paixão pela informática, e a convicção que meu caminho era o curso
de engenharia eletrônica.
O segundo computador foi um MSX da Gradiente, também baseado no
processador Z80. Através dele e de um modem 75/300 bps, comecei a
navegar pelo Videotexto da Telesp, o primeiro serviço de BBS do Brasil.
Nessa época, com o surgimento dos PCs e das comunicações entre
microcomputadores, comprei meu primeiro PC: um XT com monitor de
fósforo verde e um modem de 1200bps. Foi através desse equipamento que
montei a Time Tunnel BBS, em 1989.
A minha carreira profissional iniciou-se quando eu estava no último ano
da faculdade, em estágios na Telpe e Embratel. Na Telpe, fui selecionado
para estagiar no departamento de telecomunicações. Na Embratel, tive um
envolvimento excelente na area de desenvolvimento de projetos de
eletrônica. A Embratel, no final dos anos 80 e início dos anos 90, era a
Meca de desenvolvimento em eletrônica e telecomunicações. Juntamente com
mais dois colegas da faculdade, fomos os escolhidos no processo de
seleção para estagiários, onde dezenas de candidatos brigavam por vagas
que raramente surgiam. Mas minha segunda grande surpresa viria seis
meses depois.
A
Philips Components do Nordeste, cuja fábrica de circuitos integrados se
localizava em Recife, publicou em jornais de várias cidades, um anúncio
sobre a abertura de um processo de seleção para um único estagiário na
área de engenharia eletrônica. Como minha vida acadêmica não era das
melhores – já que eu dava muito mais valor aos meus hobbies/trabalhos de
fotografia, produção de vídeo e autodidatismo em eletrônica e
informática – fui ao teste na Philips com a intenção de apenas “ver como
era”. Juntamente com a Sulamerica (vizinha à Philips), as duas
indústrias eram o desejo de 10 em cada 10 formandos em engenharia. Além
de pagar os melhores salários e fornecer uma excelente carreira
profissional, as duas empresas, anualmente, promoviam um estágio de três
meses na Europa, nos centros de desenvolvimento e pesquisa da Holanda,
França e Alemanha. Das dezenas de candidatos de vários estados vizinhos,
fui o selecionado, e tive que terminar meu estágio de um ano na Embratel
na metade do caminho, para ingressar na Philips em um projeto de
automação industrial.
Formei-me engenheiro seis meses após entrar na Philips, depois de ter
abandonado os negócios de produção de vídeo e DJ. Afinal de contas, o
fato de não ter me dedicado à faculdade havia me custado um ano, e não
era agradável ver os amigos se formando enquanto eu ainda tinha matérias
para fazer. Meu maior pesadelo – a cadeira de Eletromagnetismo – havia
me deixado na mão por duas vezes e, se eu não passasse na terceira
tentativa, iria perder outro semestre.
Mudança de planos
O
início dos anos 90 foi um divisor de águas na vida brasileira. O
primeiro presidente eleito pelo voto direto toma posse, após o período
militar. Fernando Collor de Mello promove profundas mudanças na economia
brasileira, abrindo o mercado para a concorrência internacional. A
redução de impostos de importação transforma a pequena fábrica da
Philips em um empreendimento inviável. A matriz na Holanda decide por
fechá-la, em julho de 91.
Nessa época, decidi que, mais uma vez, era hora de mudar o rumo da vida.
Já estava satisfeito e realizado como engenheiro eletrônico. Nas férias
de julho, trabalhei para uma agência de turismo, sendo guia e
coordenador de grupos que viajavam para Orlando e Miami. Nesse mesmo
mês, por meio de um anúncio de jornal, colocado pela Escola Americana do
Recife, que procurava um novo professor de matemática, fiz a pergunta:
Por que não? Percebi então, que essa seria uma boa mudança de rumo e
quatro pontos primordiais levei em consideração: desenvolver a
capacidade de falar em público; recuperar a fluência do inglês, já que
as aulas e o relacionamento na escola são nessa língua; recuperar minha
proficiência em matemática e física e, como as aulas iam ate às 14
horas, eu teria as tardes livres para enveredar em meu próprio negócio,
dar mais atenção ao meu hobby da Time Tunnel BBS e me dedicar à
programação do meu sistema de comunicações com a Internet, o MailGate.
Meu envolvimento com a Internet vem desde 89, quando montei a Time
Tunnel BBS e ingressei na rede mundial de BBS, a Fidonet. Não demorou
muito e assumi, através de eleição nacional entre todos os sysops
(operador de sistema BBS) da Fidonet no Brasil, o cargo de coordenador
nacional da rede no país. A Fidonet era a primeira e única comunidade
não acadêmica, não governamental e não militar, a ter um gateway com a
Internet, através de e-mails. Em 1992, estruturei e montei a maior rede
de BBS no Brasil, a
RBT,
juntamente com outros sysops brasileiros.
Alguns anos depois, por volta de 93 e 94, começaram a surgir outras
formas de interconexão com a Internet, especialmente através da ONG
carioca IBASE, de Betinho. O IBASE tinha uma conexão UUCP (Unix to Unix
Copy) com um ponto de presença da Internet na Califórnia, que começou a
abrir interconexões no Brasil para instituições não acadêmicas e não
governamentais, como, em particular, as BBS.
Em Pernambuco, já trabalhando na Escola Americana do Recife, consegui
abrir a primeira interconexão de uma escola de segundo-grau brasileira
na Internet, através de UUCP com ponto de presença da RNP, no ITEP. Os
alunos da Escola Americana do Recife podiam se relacionar com centenas
de alunos no mundo inteiro, através de conferências públicas,
principalmente, a rede K12 americana.
Em julho de 95, seguindo as diretrizes da abertura da Internet comercial
no Brasil e com a quebra do monopólio da Embratel, o ITEP reúne algumas
empresas do Estado, para que pudessem discutir a viabilização dos
primeiros provedores comerciais. Nessa reunião, encontrei-me com
Belarmino, fundador e presidente do Grupo Elogica, quem eu havia
conhecido dois anos antes. Depois de alguns telefonemas e reuniões,
aceitei o convite para criar e operacionalizar o provedor de Internet do
Grupo Elogica. Assumi o cargo de diretor da Elogica em setembro do mesmo
ano, e em menos de seis meses, foi montada a empresa. O provedor se
transformou em um fenômeno mercadológico não só em Recife, mas em todo o
nordeste brasileiro, culminando com a escolha, em 1999, da Elogica como
o
melhor provedor
comercial brasileiro,
pela revista INFO EXAME.
Em 21 de abril de 2000, após mais de um ano de negociações com
investidores americanos, ficou decidida a venda do provedor Elogica para
o grupo Psinet. A princípio, eu deveria continuar trabalhando na
Elogica/Psinet, mas, por motivos diversos, pedi demissão. Dias depois,
fui convidado para assumir a presidência da Inter.net do Brasil. Aceitei
o desafio e me mudei para São Paulo em Maio de 2000. Consolidada a
empresa após dois anos, deixei a Inter.net do Brasil e assumi mais um
novo desafio, agora mundial, nos EUA. |